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A política externa brasileira depois de Lula

João Augusto de Castro Neves

Com as eleições presidenciais ocorrendo no próximo mês de outubro, José Serra, candidato à presidência pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), elevou o tom das críticas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT). Nada mais natural, em se tratando de partidos políticos rivais. A novidade, no entanto, ficou por conta da exploração eleitoral de temas de política externa. Desde maio deste ano, a candidatura oposicionista acusou a Bolívia de ser cúmplice do tráfico de drogas que entram no Brasil, denunciou uma suposta ligação do PT com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e criticou as relações do governo Lula com regimes autoritários como Irã e Cuba.

Como estratégia eleitoral, as críticas à política externa conduzida pelo governo Lula terão um impacto reduzido. Apesar do esforço do presidente Lula em dar mais visibilidade à sua ação diplomática, o debate político em Brasília nunca deu muito espaço para temas de relações internacionais e a opinião pública brasileira não se interessa muito pela questão. Mas, ainda assim, as críticas são válidas uma vez que ao politizarem a ação diplomática brasileira, as principais forças políticas do país ficam obrigadas a explicitar e discutir com maior clareza seus respectivos projetos de política externa. 

Sob vários ângulos, essa discussão é de extrema importância já que, na última década, o posicionamento do Brasil no mundo mudou de patamar. Na América do Sul, uma maior assertividade da política externa brasileira se traduziu na criação de novas instituições como a União  de Nações Sul-Americanas (UNASUL) e o Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS), e na intensificação de investimentos brasileiros em países da região. No plano global, o Brasil teve papel de destaque nas negociações da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC) e, juntamente com outros países emergentes, foi chamado para discutir, no âmbito do G20 financeiro, medidas para combater a crise financeira internacional de 2008-2009. Nas discussões sobre mudança climática e proliferação nuclear, o país também se manifestou de forma mais assertiva do que de costume.

Parte significativa dessa mudança de status do país no cenário global é atribuída ao governo Lula, às suas escolhas políticas e à sua popularidade dentro e fora do país. Mas como podemos explicar, afinal, a desenvoltura de Lula com líderes tão díspares como os presidentes Barack Obama (Estados Unidos), Mahmoud Ahmadinejad (Irã), Nicolas Sarkozy (França), Hugo Chávez (Venezuela), entre outros? Nem mesmo declarações polêmicas, como a defesa do programa nuclear iraniano ou a crítica à dissidentes políticos cubanos, parecem arranhar o carisma do líder brasileiro. Diante dessa realidade, a eleição presidencial de outubro deverá se tornar um marco importante para as relações internacionais do Brasil nos próximos anos. Afinal, independentemente de quem vencer as eleições, um fato é certo: no início de 2011, o próximo presidente do Brasil será bem menos popular que o presidente Lula.  

Mesmo contando com a mesma tecnocracia do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), que conduz a diplomacia do país, o novo presidente brasileiro assumirá o comando de um país com maior visibilidade internacional e estará diante de escolhas internacionais difíceis de serem tomadas, tanto no âmbito regional como no âmbito global. Como os dois principais candidatos à presidência se comportarão diante desses desafios?

É razoável esperar que a ex-ministra Dilma Rousseff (PT), candidata de Lula, tente seguir os passos de seu antecessor. Contudo, sua falta de experiência e de liderança políticas sugerem cautela. Em primeiro lugar, se ela mantiver o desenho administrativo deixado pelo governo Lula, Rousseff terá de lidar com possíveis diferenças de opiniões dentro de sua própria equipe ministerial no que se refere à política externa (Petrobras, BNDES, Itamaraty, Defesa, Comércio Exterior, Agricultura, etc.). Segundo, Rousseff herdará de Lula uma região suscetível a contenciosos e crises e, além de defender os investimentos brasileiros nos países vizinhos, terá também que evitar um possível processo de desintegração regional. Por fim, Rousseff certamente terá de consumir tempo e capital político em torno de questões polêmicas como a relação do Brasil com o Irã e com outros regimes autoritários.

O candidato da oposição, José Serra (PSDB), por sua vez, já teceu algumas críticas que permitem algumas suposições sobre a política externa de seu governo. No lado das ações prováveis, um ministério mais enxuto deverá reduzir as vozes dissonantes sobre a política exterior. O distanciamento do país de regimes considerados autoritários também seria um movimento esperado do governo Serra. Já em relação à ação regional e à política comercial, muitas dúvidas permanecem. Apesar das críticas ao Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) e a alguns países vizinhos, é difícil imaginar quais medidas seriam tomadas pelo governo Serra. Afinal, mesmo tendo sido aventada a possibilidade de flexibilizar o MERCOSUL, permitindo que cada país adotasse sua política comercial livremente, não se pode afirmar que o PSDB conduziria uma agenda de livre comércio. 

Além dessas questões, o futuro presidente brasileiro terá de lidar com a participação do Brasil nas negociações multilaterais de comércio e sobre mudanças climáticas, a relação do país com outras potências emergentes em fóruns como os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), IBAS (Índia, Brasil e África do Sul), e a relação com o mundo desenvolvido (Estados Unidos, União Europeia, Canadá e Japão). Se o governo Lula ajudou a atrair atenção —doméstica e internacional— à diplomacia brasileira, sua saída do cenário político permitirá avaliar com maior clareza o quão sustentável é a política exterior do Brasil sem a liderança e a popularidade do presidente Lula. 

João Augusto de Castro Neves é doutorando em ciência política pela Universidade de São Paulo (Brasil) e sócio-fundador da CAC Consultoria Política, empresa com sede em Brasília (www.analisepolitica.com). Atualmente, trabalha como consultor político independente em Washington, D.C. Pode ser contactado através do seguinte correio eletrônico: joao@castroneves.net.


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